Eu não queria, amor. Juro pra ti que naquele momento minha maior vontade foi largar as malas na porta do prédio e voltar correndo ao teu encontro. Dizer que estava tudo bem, que era possível esquecer qualquer coisa e me prender só ao amor. Que esse sentimento tão silencioso e gigantesco era o bastante pra me fazer ficar e suportar nossa relação turbulenta.
Queria abraçar teu travesseiro até pegar no sono e fingir que nada daquilo estava acontecendo. Términos doem. Até mesmo em quem decidiu ir embora, e essa pessoa era eu. Com olheiras fundas e lágrimas que ainda escorriam pelo rosto eu assisti enquanto o taxista colocava minhas malas no porta-malas e me olhava com pena. “Você precisa de ajuda?” perguntou ele, disse que não. Não precisava, ninguém poderia me ajudar. Eu estava indo sem você; e ninguém poderia remediar isso.
Ninguém poderia me ajudar com o fato de ter apenas uma escova de dentes no meu banheiro agora. Ou de não encontrar mais um par de chinelos ao lado da porta. Ninguém me ajudaria com os dias em que chegaria tarde em casa e iria precisar de um café quente e cafuné. Ninguém poderia fazer isso por mim, ninguém poderia ficar no seu lugar. Outra pessoa, um dia, talvez, ocupasse um posto diferente e eu viesse a ser feliz, mas não no seu lugar.
O que o taxista poderia fazer pela menina que deixou o mundo desabar bem a sua frente tendo plena consciência de que nada podia fazer? O castelo de areia estava desmoronando. E ela assistia, bebendo chá ou qualquer coisa quente, enrolada numa coberta aconchegante. Até agora não tinha experimentado nada mais triste que ver isso morrendo e não poder me mexer. Eu estava petrificada. Ah, moreno. Nossas idas e vindas doíam mais em mim que qualquer agulha já doera –e sabe que tenho muito medo delas. Resolvi partir, meu caro, porque ficar e te assistir ir embora seria permanecer num cemitério de sentimentos. E nunca tive vocação para coveiro.

Eu tive que ir, rapaz, mesmo querendo ficar. 
Você sabe, partir às vezes é a melhor forma de amar alguém. 

— Bruna Barp



OBS: O texto em NADA tem a ver com a vida pessoal da autora. A situação e personagens são apenas fictícios. 






Foto: We heart it
Eu tô sempre aí, moreno. Do café da manhã, no qual agora vai açúcar ao invés do adoçante que costumava estar na tua bebida, à hora de dormir, quando vai deixar a TV ligada porque também acostumou a dormir assim.
Já fazem meses e, mesmo assim, eu sei que ainda estou aí. Não é preciso ser um gênio para ver, mesmo que eu sempre tenha notado mais que a maioria das pessoas. Desde o momento em que tomou a decisão de sair com ela, ao pedido de namoro. Vou estar aí em cada manhã chuvosa e toda a vez que o box embaçar. Ah, eu vou, rapaz.
Por mais que doa não só em você, já que deixei tanto de mim. Meses após o término, eu ainda rio ao lembrar que não gostava do fato de pisar no carpete do quarto usando sapatos. E que, de forma alguma, usava meu shampoo feminino. É, moreno, você também está aqui, em cada pedacinho das coisas que amo, e ainda mais nas que odeio. Já que agora eu costumo colocá-lo nessa última coluna, mesmo que minha mãe tenha passado a vida inteira dizendo que a linha entre amor e ódio é tênue demais.
Entretanto, enquanto estiver na coluna dos que odeio, estará tudo bem, sabe? Eu guardo muita coisa que odeio. Uma blusinha que odeio, um sapato que odeio, uma bijuteria que quero jogar fora, mas não jogo. Porque, hora ou outra, quero usar. Dá saudade, ou tem valor sentimental. Ainda não sei em qual dos três você se encaixa, cara, mas é possível que transite entre os vários e ainda outros.
Eu sinto que estou ali toda vez que o vejo com a barba mal feita, cruzando a rua aqui perto. Nunca gostou de deixá-la assim, mas agora a frequência com que o vejo de tal forma, é grande. Por descuido ou não, isso é algo que nunca vou saber. Soube mais ainda que estava presente, naquele dia de temporal, em que apareceu na livraria para comprar uma obra que eu nem sei se existe, bem no meu horário de saída. Chovia muito e eu nem tinha guarda-chuva.
Confirmei no instante em que, automaticamente estendi o braço, liguei o rádio do seu carro e congelei por um momento: minha playlist, aquela que eu dizia narrar minha vida –talvez eu tenha dito algo como “nossa vida”, naquela época. Estava na metade da quarta música, aquela que sempre me fazia pular porque era “melodramática demais, imagina se algum amigo meu ouve isso?”, eu ria, e pulava.
Eu soube quando, ao invés de dar tchau, eu quis ficar. Ficar com um cara que está na coluna de “odeio”. Ficar com alguém cujo tempo já tinha acabado. Ficar com o homem que me levou aos céus tão rápido quanto caí no chão. Eu quis fechar a porta do carro e dizer “precisamos conversar sobre isso”. Mas não foi o que fiz. Eu sorri amigável, agradeci a carona e fechei a porta. Abanando do Hall de entrada até não avistar mais o carro.
Depois corri pra chuva, moreno. E cada gota gelada que batia na minha pele, era um choque. Era um grito no silêncio dizendo que eu precisava deixar ir. Que eu continuaria ali com você, e você aqui, mas que não éramos mais um do outro. Era tempo de recomeço e eu deveria amá-lo tanto quanto ao antigo.

Deveria seguir em frente, ainda que eu sempre estivesse contigo, mesmo sem estar. 


— Bruna Barp



OBS: O texto em NADA tem a ver com a vida pessoal da autora. A situação e personagens são apenas fictícios. 






Foto: We heart it
É que é tão cedo, e eu sei que o relógio aponta três da madrugada, mas aqui dentro passa devagar. 
É cedo pra decidir ir embora, moreno, porque se assustou com a minha intensidade. Pra falar a verdade, tu só viu a superfície, aqui dentro é mais fundo do que eu mesma poderia medir.
Então, se eu fizer um café, fica mais um pouco? Pra discutirmos nossas teorias sobre os astros enquanto o aroma toma nossas narinas...
E se eu prometer tentar conter o lago dentro de mim, ou te oferecer um colete salva-vidas? Tu bebes mais uma xícara? 
Não é o primeiro a se assustar, moreno, mas pode ser que resolva não ir embora. Quem sabe? O destino sempre brincou com a minha cara. É que eu não sei ser pouco, rapaz. Muito menos aprendi a conter sentimentos. Como pode ver, são tão a flor da pele, que quase brotam.
Mas se aceitar ficar, e falar mais um pouco, posso te convencer de que vale a pena. O lago é fundo, mas turvo só lá embaixo. De toda forma, se eu fosse tu, dispensaria até mesmo o colete. 
Porque sabe, que graça tem não se arriscar? Tu podes se afogar, ou aprender a nadar e, vez ou outra, mergulhar às profundezas. 
Lá também é bonito, aconchegante, e o que eu mais gosto: transborda.

— Bruna Barp



OBS: O texto em NADA tem a ver com a vida pessoal da autora. A situação e personagens são apenas fictícios. 



Foto: We heart it
_Mas você gosta dele.
_Gosto nada.
_Claro que gosta.
_Não, cara, foi coisa passageira! _gritei para minha melhor amiga, enquanto ela me dava as costas. Já não era tempo de deixar-me lá, para conviver com meu sentimento.
Ela estava cansada de tentar me fazer admitir, pensar, cogitar... Qualquer uma dessas possibilidades me deixava assustada, como um cão acuado, sem saber como dar o próximo passo, sem querer sair do lugar. A dificuldade sempre foi entregar.
Entregar um sentimento, um olhar, entregar o jogo ou me entregar para o amor. Não gostava de ter que entregar nada, receber era tão fácil, eu não queria ser recebida. Eu queria chegar com tudo que tinha direito, e eu tinha.
Meu medo não era complicado de entender: eu não sabia lidar com reciprocidade. Essa coisa de ter o sentimento do outro voltado para mim na mesma intensidade era um território perigoso, e eu procurava me manter fora dele. Como nunca pude impedir o sentimento dos outros, eu aprendi a evitar os meus.
Sempre há um lugar em que a gente pode escondê-los, disfarçar, mascarar. O que eu ainda estou tentando fazer é achar a fórmula para não deixá-los nascer, meu caro. Porque eu evito, desvio o olhar, viro a esquina, mas eles continuam ali, esperando qualquer vacilo. E você sabe, eu não posso vacilar. Foi um privilégio que descartei há tempo suficiente para entender que deixar escorrer sentimento resulta em inundação. E uma vez eu quase me afoguei.
Só que ao invés de aprender a nadar, eu corri da água. Corri para bem longe, sem deixar que tocasse sequer as pontinhas dos dedos dos pés. Sabia que a brisa me convenceria a entrar naquele oceano profundo que era o coração, e eu queria manter o meu a sete chaves. Talvez alguém tivesse a oitava. Talvez eu traísse a mim mesma e, de tão bêbada, corresse para o mar de sentimentos que estava trancado aqui dentro.
O fato é que eu não queria sentir, não quero. E finjo que não sinto o tempo todo. Minto para mim mesma. Talvez nem exista a oitava chave, ou quem sabe existam oitocentas. Eu não sei.

E estou evitando saber, mesmo que eu sinta. E eu sinto muito.

— Bruna Barp



OBS: O texto em NADA tem a ver com a vida pessoal da autora. A situação e personagens são apenas fictícios. 



Foto: We heart it
_Está bem, você ganhou, pode comemorar e levar suas coisas daqui.
_Mas eu não ganhei.
_E então por que sinto que perdi?
_Acho que nós dois perdemos.
Ele disse, enquanto tirava suas camisas dos cabides. Eu tinha esvaziado uma parte do guarda-roupa para que coubessem suas roupas, e a escova de dente dele ainda estava no banheiro. Parte de mim queria que ele a esquecesse, assim eu teria um motivo para bater na porta do apartamento dele à uma da manhã e devolver a droga da escova.
Sempre achei que quando esse jogo acabasse fosse me sentir leve. No mínimo vitoriosa, mas acho que perdi no jogo que eu mesma inventei. Me propus a jogar com ele, criei as regras, comprei um tabuleiro –parecido demais com minha vida, aliás. Infelizmente, esgotamos a paciência ou qualquer excitação em jogar rápido demais, jogos com muitas regras não deixam liberdade alguma e, no fim, acabamos presos nisso tudo. Quando só o que eu queria era provar estar certa.
Às vezes, renunciar a razão poderia ter resultado em pinos ainda ativos, prontos para jogar o próximo dado. Mas eu nunca fui de abrir mão de alguma coisa, principalmente quando essa coisa fosse a intitulada vitória, que eu estava tão preocupada em conquistar. Em erguer como um troféu, em fazer entender que o jogo estava ganho desde o início.
Eu perdi, você perdeu. Tudo no meio do caminho foi perdido. As risadas acabaram hipotecadas enquanto eu acumulava razão. Quanto ao amor, ah, esse eu vendi. Eu queria a maldita razão... o que não sabia era que é preciso perder a razão para ganhar amor. Acho que eu perdi os dois. Porque perdemos o jogo, viramos o tabuleiro, desistimos.
E eu fiquei aqui, sem amor e sem razão. Porque eu não quero ter razão sem amor, só que esse eu já perdi faz tempo. E quanto a você, cara, acabou deixando o jogo comandá-lo. Acabou deixando que eu ficasse no controle de tudo, e esse talvez tenha sido o erro. Eu nunca soube nem jogar videogame, eu não sou boa com controles. Nem de coisas, nem de pessoas, tampouco de relacionamentos. Eu não devia ter o controle de nada, rapaz, mas você deixou em minhas mãos.E em minhas mãos não cabem nada, meu caro, mas encaixa às tuas –talvez eu devesse ter jogado lego, ao invés de banco imobiliário. 
Ah, eu e essa minha mania de envolver jogos em tudo, quando a única regra do amor é se jogar.

— Bruna Barp



OBS: O texto em NADA tem a ver com a vida pessoal da autora. A situação e personagens são apenas fictícios. 



Foto: We heart it

Enquanto espero meu voo ser chamado, nessa sala de embarque, a única coisa que consigo sentir é o toque da liberdade despertando em cada pedaço do meu corpo. Enquanto observo as pessoas ao meu redor, dando telefonemas rápidos para dizer o quanto amam alguém que não pôde acompanha-las até o aeroporto, e algumas que trocam carinhos com seus respectivos ali mesmo, sem vergonha de qualquer coisa, penso que, ah, todos eles estão certos, se felizes.
Por isso eu sei que também estou certa, porque estou feliz e essa minha felicidade não afeta a ninguém. Há anos cortei o cordão umbilical e a cada dia essa decisão mostra-se mais correta. E eu não tenho para quem ligar. Despedi-me de meus pais antes de pegar o ônibus que me trouxe até onde me encontro. E agora não há ninguém nas minhas últimas chamadas do celular senão o número da pizza que pedi noite passada.
É nessa sala de embarque, antes mesmo de entrar num avião cheio de gente que não conheço e não me conhece, que reflito sobre o fato de eu ser livre. Eu não tenho ninguém para quem ligar e isso não me incomoda. A mocinha a minha frente não desgruda os olhos do celular, onde os polegares trabalham arduamente no touch. Volta e meia ela dá um sorriso tímido e olha ao redor, certificando-se de que ninguém viu. Estou tão atirada na cadeira que mal repara em mim.
Estar ali sem fio emocional algum que me prenda é tão reconfortante quanto um banho quente no fim de um dia exaustivo de trabalho. Não precisar que uma outra pessoa concorde com minha decisão de explorar um lugar totalmente desconhecido, sem ninguém, é excitante. Porque não devo nada a ninguém que ficou. Nem satisfação, nem qualquer tipo de compromisso a honrar. E isso, embora não pareça, multiplica meu leque de possibilidades mais vezes do que posso contar –já que sou de humanas.
Aquele sentimento leve de “o mundo é meu e posso mudar meu destino a hora que quiser” me inunda, e como –ah, como! –parece fazer parte de mim há muito tempo. De tão leve, sinto que posso carregar tal sentimento por onde for, mesmo que esse “onde” seja qualquer lugar. Um senhor ao meu lado repara na garota de coturnos surrados e sorri amigável, retribuo o sorriso e imagino que história estaria ele deixando ou indo encontrar. Valeria a pena ouvir, se meus pensamentos já não estivessem falando de mais.
Ser livre, ao contrário do conceito ao que me prendi por muito tempo, vai bem, mas bem além de um status de relacionamento solteiro. Você pode ser ou não. Eu sou. Eu escolhi ser, ou a vida escolheu pra mim –alguma coisa entre essas duas linhas –e eu aceitei de bom grado, ué, quem sou eu para recusar uma oferta dessas? Ainda mais quando a oferta é suscetível a mudanças –e ela é, sou livre para usar as amarras que eu quiser. Hoje estou solteira, amanhã posso já não estar, e é nisso(entre outros) que implica minha liberdade. Tenho a liberdade de escolher se vou estar sozinha ou não nesse âmbito amoroso. Depende do meu humor. Depende da outra pessoa. Depende de ambos. Talvez eu não esteja mais solteira por uma semana, e tal característica retorne em seguida. Talvez eu mantenha um compromisso longo e depois decida dar um basta, porque não quero mais. Ou talvez eu nunca termine esse relacionamento, porque minha liberdade me dá o direito de escolher a que ou quem me prender. É para isso que sou livre. Para poder fazer essa escolha.
Quando minha amiga liga, de ultima hora, convidando para fazer um porre, eu decido naquele minuto se estou a fim, e vou ou não. Até mesmo quando meus pais convidam-me para almoços de família tenho essa escolha. Porque ter liberdade significa escolher. Não me prender a nada que mude ou influencie de forma invasiva essa minha escolha.
Ser livre está pintado no chão do avião em que me encontro agora, por meio do qual irei até logo ali, ou mais para lá, não sei, vai depender de minha vontade. E essa, é a única coisa a que aceito me prender, porque ela conduz as rédeas de minha liberdade.

Por enquanto, minha vontade decide que estou aqui, talvez amanhã eu chegue lá, mas ela ainda não me contou onde fica esse lá. 
Bem, a liberdade me dá escolha de escolher.

— Bruna Barp



OBS: O texto em NADA tem a ver com a vida pessoal da autora. A situação e personagens são apenas fictícios. 



Foto: We heart it
Eu cansei de deixar o frio lá fora me invadir. Cansei de deixar o frio dos outros se instalar em cada pedacinho desse meu corpo coberto de rachaduras. Cansei de deixar que o fora esfriasse o dentro. E sim, eu tenho plena consciência de que o dentro é feito de foras. De que não posso compor nada aqui sem influencia do .
Então aprendi. Aprendi que a forma de olhar as coisas muda tudo, e que eu poderia ver poesia sempre. Há poema nas praças da cidade, cobertas por folhas e pétalas de flor. Há poema num ônibus lotado, onde cada um está a caminho de um sonho –ou do meio para chegar a ele. E se tem poema, tem calor. Eu aprendi que, quando bate um vento no rosto e bagunça meu cabelo, é opção minha encarar de mau-humor –porque estou descabelada, ou sorrir e aproveitar os cabelos esvoaçantes.
Foi com o tempo que aprendi a não ligar se chover e eu estiver sem guarda-chuva. Eu posso esperar o tempo acalmar enquanto assisto diversos gestos banais de amor, que passariam despercebidos se eu estivesse na pressa em que me encontro todo o dia. Ou há uma segunda opção: me aventurar nessa chuva limpinha, de água fresca, que lava o rosto e refresca a alma –é claro que preciso ir direto para casa após isso.
Portanto lá fora está frio, as pessoas caminham depressa, tropeçando nos olhares dos outros sem mesmo ver. Uma mala de viagem choca-se com outra bolsa, mas ninguém para a fim de desculpar-se –não há tempo. As vozes irritadiças, nervosas e muitas vezes impacientes, falam para o celular, onde outra pessoa no mesmo estado de espirito, responde. E o ciclo não tem fim. É uma correria danada.
Não estou mais acostumada, nem quero.
Faz frio lá fora, mas aqui dentro está quente, meu bem. Está quente porque eu aprendi a ouvir “adeus” sem dar adendos à palavra. Eu aprendi a ouvir “não” sabendo que não tem volta, e partir para a próxima. Eu aprendi que teu amor foi muito, mas não foi tudo. Teu frio tentou entrar, bateu na porta, tocou a campainha, mandou flores; eu não deixei. O frio das pessoas que me lançam olhares hostis por caminhar na rua apreciando a paisagem, ao invés de correr por ela focando uma porta automática, também não me afeta.
Foi o tempo em que me deixava afetar. Mas agora não, agora aqui dentro está quentinho. Está quente porque eu me tornei expert em seleção –apenas coisas quentes são bem-vindas. Chocolates quentes, abraços quentes, corações quentes.  
O frio lá fora é natural e até belo, faz parte das estações. Mas aqui dentro? Ah, aqui dentro não combina com nada. Nem com minhas unhas vermelhas, nem com o fogo da lareira, muito menos com esse coração derretido.

O frio aqui não é bem-vindo, e partir de agora, eu só transbordo se for quente

— Bruna Barp



OBS: O texto em NADA tem a ver com a vida pessoal da autora. A situação e personagens são apenas fictícios. 




Foto: We heart it
Nós já éramos namoro antes de ser. Nós já éramos no instante em que os meus olhos cruzaram com os teus. Éramos no momento em que a conversa teve início, até cessar para um silencio confortável.
Já podíamos intitular namoro quando me ofereceu seu casaco no frio. Quando me convidou para um jantar e quando eu, é claro, aceitei. Não poderia ter sido diferente. Nada disso poderia. Nós éramos namoro no minuto em que teus dedos entrelaçaram os meus, naquele segundinho em que eu senti que nossas mãos era compatíveis, e quem sabe, até feitas para se encaixar.
Nós fomos namoro bem antes do pedido, nós ainda somos namoro um tempo depois. Fomos namoro antes do pedido peculiar –que eu mantenho em segredo, existem coisas que precisam ser só da gente. Fomos namoro bem antes de teu abraço se tornar um aconchego para o qual eu correria no fim do dia –tenha sido ele bom, ou ruim.
Nós fomos nós dois bem antes de qualquer eu te amo. Antes que eu pudesse cogitar sentir qualquer coisa, antes que você notasse minha presença. Nós éramos antes de perceber ser. E nós continuamos sendo. Sendo aquele riso frouxo, aquele abraço quente, o beijo turbulento e o entrelaçar de dedos que me faz sentir em casa –em qualquer lugar do mundo.
E enquanto escrevo isso, você está bem aqui do lado, assistindo aquele seriado que eu nem gosto, mas vejo com você. Nós estamos bem aqui, sendo o que somos. O que escolhemos ser, ou o que amor escolheu para que fossemos. Seja como for, eu sou grata. Sou grata por alguma energia positiva ter me guiado até isso, até nós. Grata por sermos o que somos.
Hoje é dia dos namorados, moreno. E eu cansei de dizer que essas datas criadas pelo capitalismo não deveriam ser comemoradas. Que eu manteria distancia do clichê –e veja só onde me encontro. Escrevendo um texto de dia dos namorados para um cara que resolveu concordar com minha imposição –mesmo a contragosto –de não comemorar nada disso.  De sermos o que somos todos os dias, sem bajulações numa data escolhida por alguém.
Nós éramos namoro bem antes de sermos namorados. Nós fomos amor muito antes de entender o que dormir pensando em alguém significava. Fomos amor antes que eu me desse conta de ser. Fomos amor antes de eu admitir que te amava.

Nós fomos, somos, e continuaremos. Porque nós já éramos bem antes de ser. 

— Bruna Barp



OBS: O texto em NADA tem a ver com a vida pessoal da autora. A situação e personagens são apenas fictícios. 




Foto: We heart it
Amo maionese, mas quando como me dá alergia. Nada de mais, umas manchinhas aqui, brotoejas ali. Antialérgico resolve. Amo amarelo, mas não cai bem em mim. Já tentei de tudo: blusa, casaco, calça e –pasmem, até sapatos. Cachecol, touca, luvas... nada. A conclusão a que cheguei é que não combina com minha pele, não combina comigo. E, ah, moreno! acho que acabo de encontrar nossa solução –ou problema.
Eu amo o inverno, mas tremo de frio. Eu sei, devo vestir mais roupas, mas e a ponta do nariz? Camadas de suéteres amparados por um casaco, meia-calça, calça, algumas meias e uma bota forradinha. Esse monte de coisas mascara –ou quase- o frio que me adentra. Mas, meu bem, e a ponta do nariz? A ponta do nariz representa a ponta do iceberg, sabe? A gente vê só a pontinha, e aquilo é apenas um sinal, uma amostra do que há escondido. Mas é melhor não mexer, aconselho, o iceberg é grande de mais para chegar ao “cerne”, o frio em mim é gelado de mais para chegar às entranhas. Você não aguentaria, moreno, necrosaria a ponta dos dedos e logo a hipotermia se faria presente.
Então, deixe como está. A pontinha do nariz está gelada, mas é melhor que você sinta apenas isso enquanto tento esquentá-la em seu pescoço. Está quentinho aqui, entre os dois braços cobertos por casacos –um deles foi presente meu, desculpe reparar nisso. E eu amo você. Amo cada cantinho disso aqui. Cada pedacinho, rapaz.
No entanto, me faz mal. Como posso amar algo que me faz mal? Estou ciente de que nada tenho a ver com a síndrome de Estocolmo, não é você quem me faz mal, não é isso aqui que me faz mal –nem o teu pescoço quente. É algo além da minha compreensão. E estou quase acostumada a isso –a ter as coisas fugindo do meu controle sem dar qualquer explicação. A ver tudo dar errado aos poucos sem que eu tenha percebido qualquer coisa divergente que pudesse ocasionar tal sequencia errônea.
Queria que com você fosse diferente, moreno. Mas eu costumo amar tudo que não posso.
Eu amo o inverno e não fui feita pra ele. Amo amarelo e a cor não combina comigo. Amo maionese e tenho alergia.
Eu amo você e (...) 

— Bruna Barp



OBS: O texto em NADA tem a ver com a vida pessoal da autora. A situação e personagens são apenas fictícios. 




Foto: We heart it
Ela chorava, ah, sim, chorava. Chorava sem derramar uma lágima sequer. E bem ali, na minha frente, enquanto levava a taça de champanhe aos lábios mais uma vez e sorria educadamente. Ela estava acompanhando, seguindo o fluxo.
Afinal, era isso que os outros esperavam dela, nada menos. Nada menos. Não era justificável chorar mais, não era permitido ainda sofrer. Mesmo que ainda doesse. Mesmo que não tivesse ido embora. Era inaceitável. Inaceitável sofrer mais que a dor permitida pelos olhos alheios.
Ah, e os olhos alheios. Estavam todos nela. Alguns porque era linda, outros porque esperavam um deslize, o meu, por curiosidade. Curiosidade daqueles olhos claros de águas fundas e turvas. Mas ela não se importava, nem com os meus olhos, nem com os dos outros. Não, ela não ligava.
Sua atenção estava toda voltada para o choro interno, para garantir que ele continuasse a ser interno. A existir apenas dentro dela. A ser exposto apenas para o espelho. A engolir a própria dor porque não cabia mais no prato dos outros.
Não, o tempo em que as pessoas se importavam passou. O tempo em que era normal chorar pelo acontecido se foi. Mas ela ficou. Ficou ali, cheia de dores reprimidas. Transbordando lágrimas proibidas. Pelos poros, pelo riso, pelos olhos.
E eu também fiquei aqui, admirado, angustiado...
Assistindo o corpo dela chorar em silencio sem ser notado.
Assistindo cada exalar de respiração rasgar o peito.
Assistindo-a desmoronar ali, de salto alto, copo na mão e batom cor de carmim.

— Bruna Barp



OBS: O texto em NADA tem a ver com a vida pessoal da autora. A situação e personagens são apenas fictícios. 



Foto: We heart it

Talvez tu estejas lendo isso ou talvez nunca virá a ler, também é bem possível que eu nem esteja falando de ti...  mas não importa, porque passei aqui pra lembrar que te esqueci. É só que, às vezes, eu ainda tenho que lembrar isso a mim mesma. Não é sempre, confesso, mas há certa frequência.
Às vezes fica difícil não me perder na profundidade dos teus olhos sem esquecer que te esqueci. Então passei aqui para lembrar que te esqueci mesmo quando alguém faz uma piada idiota e não consigo conter o riso. E que te esqueci também quando um alguém desconhecido passa por mim exalando teu perfume. Ah, moreno, eu preciso lembrar que te esqueci até quando assisto um filme que você odiava.
Te esqueci a partir do momento em que as borboletas no estômago foram vagarosamente envenenadas, e eu nem sei como se envenena uma borboleta. No mesmo instante em que os olhares ainda eram meus, mas o resto passou a ser de outra. No minuto em que as tuas palavras deixaram de condizer com a realidade e passaram a ser só palavras.
Talvez, você que lê isso, se identifique. Possivelmente também precisa lembrar a si mesma de que esqueceu alguém. Esqueceu e não quer mais saber. Esqueceu e não entende porquê precisa lembrar. É, eu preciso.
Estou passando para lembrar que te esqueci desde aquele adeus. Que te esqueci desde que sua prioridade foi outra, desde que decidiu -não me deixar de lado, mas para trás. Te esqueci desde que a tua mão entrelaçou outra e meus olhos cruzaram com outros. Eu esqueci você desde o momento em que falei que iria.
Só que às vezes eu preciso lembrar, moreno. Mesmo quando tuas pupilas não deixam as minhas. Mesmo quando o abraço demora mais que o necessário. Mesmo quando eu não viro o rosto. E até quando quase me escapa um sorriso desobediente. Porque eu te esqueci, cara, e disso não tenho dúvidas.

Só não consigo esquecer que te esqueci. 

— Bruna Barp



OBS: O texto em NADA tem a ver com a vida pessoal da autora. A situação e personagens são apenas fictícios. 



Foto: We heart it
Começo pelo sentido mais puro da frase: eu não sei fazer faxina. 
Inicio limpando uma coisa aqui e outra ali: jogo alguns papéis fora, uma roupa para doar, outra para guardar no fundo do armário. Umas roupas de baixo que jogo fora, algumas cobertas quase nunca usadas que coloco para pegar sol. 
Uma coisa aqui e outra ali, só que sempre acabo esquecendo daquela lá. Ah, moreno, eu não sei fazer faxina! Joguei tudo fora: minhas lembranças da noite no parque, da festa divertida, do beijo suave e outro com calor. Enterrei bem fundo o cheiro do teu perfume impregnado em minhas narinas, e troquei de sabão em pó. Apaguei da agenda o número mais ligado, excluí as mensagens de texto e a conversa do Whats
Eu tentei ir com calma desta vez, já que estava acostumada a fazer faxina com pressa para terminar e sempre deixei algo de lado. Um pozinho ali, outra marquinha aqui, a borda de um papel que recortei ou uma saudade que se escondeu no cantinho da parede, não importa, algo sempre foi deixado para trás. 
E não foi falta de empenho, moreno, eu peguei a vassoura e mandei ver! Eu varri todas as lembranças e qualquer resquício de momento bom, eu limpei do cantinho aquela vontade recém-nascida de voltar atrás, deixar pra lá, reconsiderar, tentar outra vez. Passei aspirador no tapete que comprei mesmo sabendo que odiaria -o pelo te causava alergia- porque me apaixonei pela cor e gostava só um pouquinho de me sentir caminhando em uma nuvem, isso também você achou bobagem
Mas nada disso importa, rapaz, porque eu não sei fazer faxina. Eu não sei limpar a porta do meu coração dos teus resquícios e deixar o ambiente agradável para a próxima visita. Não sei abrir a janela para outros olhos e nem mesmo olhar pelo olho-mágico a outro sentimento.
Talvez a solução seja chamar um dedetizador que garanta deixar as aberturas limpas do passado, para que a cor do amanhã se instale sem manchas. Ou talvez eu deva voltar para a casa de meus pais e implorar para que me minha mãe me ensine outra vez a fazer uma boa faxina, ela dizia que eu ia fazer "mal-feito" e, bom, acho que tinha razão.
Sempre respondi que contrataria faxineira, mas ninguém limpará a sujeira que a dona da casa tornou de estimação. 

— Bruna Barp



OBS: O texto em NADA tem a ver com a vida pessoal da autora. A situação e personagens são apenas fictícios. 



Foto: We heart it
Aquele café diferente que deixamos de experimentar. O adoçante no lugar de açúcar, não para tornar hábito, mas para experimentar. Comprar uma roupa para o dia-a-dia ou optar pela mais bonita e cheia de frufrus? Entrar na loja para ver opções ou deduzir pela vitrine? As coisas que a gente deixa de fazer compõe lista maior do que a que fazemos.
Aquela festa que você troca pela Netflix, pelo trabalho atrasado ou simplesmente pijama e uma xícara de chocolate-quente. Deixar de dar bom-dia a um idoso que lhe sorri ou uma criança que corre, mas ao passar por você olha-te nos olhos. Aquele filme que dispensou pela opinião alheia. Aquela cerveja que nem mesmo quis sentir o aroma.
Das coisas que deixamos de fazer estão pessoas. Aquele convite para jantar recusado.  Aquela pessoa que você não... hã, foi com a cara? Aquele beijo quase-dado, aquele amor quase amado. Aquele livro esquisito e machucado ao final da prateleira, que você julgou pela capa e arranhões que ele sofreu sem querer.
Um curso diferente, uma palestra peculiar. Aquela comida com cara estranha e cheiro implacável. Uma bebida amarga que deixou de beber. Aquele perfume exótico que saía de sua zona de conforto. Aquela pessoa com riso frouxo e olhar distante que te intrigou só que você resolveu ignorar a sensação. Aquele toque no seu braço, avisando sobre qualquer coisa banal que te causou arrepios. Uma troca de olhares com um desconhecido. A quase faísca de um abraço que deixaste de dar.
Aquele amontoado de sensações e sentimentos que poderiam ter acontecido, não tiveram continuidade ou foram ignorados, aquela amontado de extraordinariedade(essa palavra não existe) que deixamos passar, impelimos ou expulsamos. E todo o dia milhares de nós escolhe deixar de fazer porque escolher um resulta em perder outro. E ninguém quer perder, no entanto essa escolha já não nos é permitida fazer. Um ou outro. A ou B. Faça ou deixe de fazer. Você PRECISA decidir. Precisa parar de deixar de fazer e fazer mais. 
E você pode deixar de fazer tudo, menos de se permitir. 


— Bruna Barp



OBS: O texto em NADA tem a ver com a vida pessoal da autora. A situação e personagens são apenas fictícios. 



Foto: We heart it
E eu nem pedi para ficar.
Depois de uma discussão como qualquer outra que já havia virado rotina, ela bateu a porta. Jogou as roupas numa mala e resolveu ir. É claro que eu não me importei, era apenas uma discussão. Como tantas outras. Ela voltaria.
Por que dessa vez seria diferente? Ela gritou comigo, eu não fiz menos. Ela chorou, eu bebi o segundo copo de uísque. Mas era uma discussão qualquer, é claro que ia passar. Um dos dois daria o último suspiro, derrotado, e partiria para outro cômodo do apartamento. No dia seguinte alguém pediria desculpas. Assim que funcionava, e continuaria.
Talvez ela pegasse minha garrafa recém aberta e viraria na pia do banheiro, enquanto chorava as mágoas restantes. Não seria a primeira vez. E eu ficaria lá, terminando o conteúdo do copo, enquanto tirava da mala algumas peças de roupa que ela jogara lá durante a discussão. A dramatização era sempre a mesma, algumas roupas sempre paravam na mala, e eu sempre as guardava o mais rápido possível, assim que ela virava-me as costas. Para que não desse tempo de se lembrar que decidiu ir embora. Mais uma vez.
Entre um gole e outro, o perfume de suas roupas pairava até meu nariz, fazendo-me arrepender de cada e qualquer palavra que, com má intenção, disse durante a discussão. No entanto, era só uma discussão, sempre foi. E eu sempre saía perdendo uma garrafa de uísque, ou vinho, o que tivesse nas mãos e fosse parar nas dela.
Nada disso me importava. Nem as garrafas, nem o monte de roupas para guardar. Porque ela sempre voltava, voltava atrás na decisão. Secava as lágrimas e corria para os meus braços, onde era seu lugar. E eu me desculpava por tê-la feito chorar, sempre. Mesmo quando achava estar com razão. Ela não devia chorar por minha causa, ela não merecia chorar por nada.
Só que dessa vez importou. Importou-me as palavras e o número dobrado de soluços que a fiz dar. Importou o fato de que não apenas algumas peças – mas todas, estivessem jogadas na mala, antes mesmo que pudesse reparar. E, depois que ela saiu pela porta, importei-me também com a garrafa jogada no chão, dessa vez –ela mesma derrubara-, porque quando me dei conta de que não voltaria, já não tinha mais onde afogar as mágoas. Nem minhas próprias lágrimas. Muito menos os inúmeros arrependimentos.

Dessa vez ela foi para não voltar –não voltar mais para mim. E talvez a única coisa que eu devia ter dito, foi a que não disse: Fica, morena. 

— Bruna Barp



OBS: O texto em NADA tem a ver com a vida pessoal da autora. A situação e personagens são apenas fictícios. 



Foto: We heart it
Eu voltei (...)
Depois da primeira discussão. Quando você me disse que não sabia se tinha certeza, que precisava de um tempo para pensar. Eu te dei esse tempo. E depois voltei. Fiz aquela viagem dos meus sonhos, sozinha, vivendo experiências incríveis do outro lado do mundo, e, ao fim de cada dia, eu voltei para você. Não fisicamente, é claro, mas meu coração voltou, sempre. Na verdade, eu nem sei se ele foi comigo, e se foi, não inteiramente.
Após contar a você dos meus sonhos sem raízes e ouvir em seguida, surpresa, que tudo bem, eu decidi que voltaria. Àquele bar ou a outro, mas voltaria com você. E, ao experimentar aquela comida horrível que arriscou fazer para mim, concluí que precisava voltar, para ensiná-lo como fazer. Iríamos rir um pouco da minha falta e prática em ensinar, mas o resultado seria bom. Sempre fui boa na cozinha.
Voltei para você depois de cada olhar trocado com outro cara nos jantares de meninas, quando ainda nem tínhamos compromisso –até quando já. Voltei para você toda a vez que alguém tentou me convencer a “tentar um outro alguém”. Voltei quando jogaram na minha cara, cheios de certeza, que eu não era para você. Ou você não era para mim –a ordem pouco importa. Eu voltei ao fim de cada viagem, cada sorriso, palavra e olhar. Ao final de qualquer filme romântico. Cena épica. Frase clichê... Há tantas formas pelas quais eu voltei, que admiro-me ter demorado tanto para perceber que talvez eu sempre fosse voltar.
Passei a vida ouvindo que quando encontrasse a minha famosa metade ia entender o que é querer passar 24hrs ao lado de alguém. Entenderia o quanto 24hrs eram insuficientes em um dia e, mais ainda, nunca julgaria casais combo(dois em um) outra vez. E eu te conheci, moreno. Conheci a minha metade e concluí, após não muito tempo, que ainda concordo com meu eu avulso. Aquele eu que afirmou a vida toda com razão na língua que não era preciso ficar o tempo todo com a pessoa.  E, por fim, acho que é isso mesmo.

O importante não é ficar, é voltar

— Bruna Barp



OBS: O texto em NADA tem a ver com a vida pessoal da autora. A situação e personagens são apenas fictícios. 



Foto: We heart it
Quanto tempo vou levar? Um dia? Uma semana? Um mês? Ou quem sabe até um ano...? Não sei, mas por agora, a única coisa que consigo fazer é deixar que as lágrimas rolem e misturem-se ao café. 
Sabe, moreno, o café costumava resolver tudo, e agora, até nele encontro lágrimas. E sim, eu as deixei aí, porém sem opção. Café resolvia a dor de cabeça e o sono. Café me deixava ativa mais algumas horas para que pudesse esperar tua chegada. Café sempre foi o aroma e sabor que me acompanhou, e, é claro, agora não podia ser diferente. 
É, moreno, talvez leve bem mais que uma semana mas, quem sabe, ao fim do mês já estarei recuperada. Ou não. Quanto tempo levamos para superar um fim? Não sei. Talvez a gente nunca supere, apenas se acostume com a ausência
A tua ausência moreno, doeu mais quando percebi teu perfume já misturado ao significado do meu café, e você sabe, não consigo largar o vício. 
Mas eu vou, né rapaz? Eu vou, porque essa relação minha com o café é mais longa do que a nossa, e, aos poucos, o que restou da tua presença vai se dissipar. Talvez eu deva trocar a cafeteira ou aumentar as colheradas do pó de café... Talvez. 
E, por fim, acho que esse foi o problema, moreno.
Eu sempre fui um café muito forte para combinar com teu chá morno.


— Bruna Barp



OBS: O texto em NADA tem a ver com a vida pessoal da autora. A situação e personagens são apenas fictícios. 



Foto: We heart it
 Das coisas que eu queria te falar, moreno, está que eu parei de fumar. Há meses você teria ficado contente com isso, embora também cultivasse o vício –e, acredito, ainda cultive. O grande problema está sendo em controlar a ansiedade, então acabei por roer a unha do mindinho e amaldiçoar-me em seguida por isso –sempre tive nojo de unhas roídas.
Outra coisa que incluo na lista, é o fato de ter organizado minha pilha de livros em ordem alfabética, com exceção daquela série favorita, precisei deixar todos juntos –seria como separar uma família. Ah, e também guardei todas as cartinhas que tenho, desde a infância, dentro de uma caixa específica, agora elas não ficam mais espalhadas naquele armário; embora eu gostasse de abrir a porta e deixar o destino escolher qual delas cairia de lá, para que fosse lida outra vez. Nostalgia, sabe como sempre fui apegada a ela.
Por terceira, preciso mencionar o fato de ter sido aprovada naquela cadeira, aquela em que precisei da sua ajuda, moreno. Não sei se o professor simpatizou comigo, ou se as aulas particulares surtiram efeito... eu só sei que, bom, consegui.
A quarta delas está no fato de que mudei o corte e –pasmem- a cor do cabelo! Cor de rosa, acredita? Nem eu! Quanto tempo para tomar coragem! E pensar que levei apenas alguns minutos para concordar com você sobre não combinarmos mais. Talvez seja porque meu cabelo é parte de mim, você já não era. Só que tudo bem, sabe, entramos em um consenso, e estou feliz com o resultado. Você também parece estar.
Ah, desculpe-me pelas atualizações, velho hábito que não consigo largar. Acho que nem quero, sabe moreno? Acostumei-me a contar-lhe os dias como o relógio conta as horas... e me parece pior do que largar o cigarro. É claro que, se quiser, pode amassar esta carta assim que ler o nome do remetente, e ela jamais será lida. Mas também é óbvio que eu nunca saberei, e nem quero, a tua opinião já tornou-se indiferente, o meu contar é que faz-me falta.
Então, caso meu nome no teu correio incomodar, ou desagradar um pouco que seja a ela,  não titubeie em rasgar ainda no envelope, ou mesmo agora, com as escritas nas mãos. O passado não deve fazer parte do presente se não o aprecia. Eu só queria contar, moreno. Contar que larguei o cigarro, arrumei os livros e cortei os cabelos. Mais que isso, eu pintei. E sabe o que pintar os cabelos significa, rapaz? Essa á a quinta coisa que eu queria falar: eu mudei, não só os cabelos.
Perdoe-me por escrever o que costumava falar, ou pior ainda, por não ter escolhido outra pessoa a quem contar. Você bem sabe que não terei por um longo tempo, e, para ser honesta, acho que nem quero. Contento-me em contar os acontecimentos ao papel e enviá-lo com a possibilidade, ou não, de que leias. E talvez o faça nas duas primeiras, e as outras apenas amasse e jogue no lixo. E tudo bem, tudo bem pra mim, rapaz.
Me acostumei a demorar para mudar, para trocar, para encontrar. Principalmente, acostumei a demorar para me acostumar.  Ainda bem que, quando o faço, fecho aspas.


— Bruna Barp



OBS: O texto em NADA tem a ver com a vida pessoal da autora. A situação e personagens são apenas fictícios. 



Foto: We heart it
Meses pra reparar que, certo dia cê acordou cansado de beijar tantas bocas diferentes e nunca ter um perfume familiar para onde voltar, e decidiu que ia tentar. Sair de casa e, ao invés de juntar os amigos para beber, entrar no primeiro café que tivesse no caminho. E era lá que eu tava, né rapaz? 
Ingênua, mal percebi o sorriso fácil que seus lábios distribuíram aos meus olhos, que, traíram a mim mesma e sorriram de volta. Porque você sabe, moreno, a gente não precisa que os lábios mudem a forma para sorrir, os olhos são tão mais competentes nessa tarefa que fizeram sem que eu percebesse. 
É, moreno, intercalando os olhos entre os teus e o jornal do dia, tomando cuidado para equilibrar a xícara de café na outra mão, foi que cê tomou coragem e veio. Veio até mim com aquela sua bagagem repetitiva que você não queria, jogou-a na minha mesa com a maior cara de pau, e eu, tola, não soube ler tudo aquilo. Mas eu sou abraçar, moreno, ah, isso eu soube. Abracei toda tua bagunça desalinhada, cheia de prós e contras que eu sequer tentei medir... Acho que, no fim, eu fiz mais que isso. Não foi apenas abraço, moreno, foi encontro. 
Foi encontro todo o dia enquanto eu ainda tentava me organizar na sua bagunça, ignorando qualquer protesto que meu subconsciente fizesse. O problema não era só eu não ser adepta à bagunça, era o fato de sua bagunça não ser minha. Eu não tinha de acolher aquele amontoado de problemas não-resolvidos e perguntas sem respostas para mim, muito menos catalogá-los e dividir em pastas. Mas o fiz. O trouxe para mim porque acreditei na sua escolha, e pensei comigo mesma: bem, se meu coração o escolheu, o mínimo que devo fazer é ajudá-lo com essa bagagem toda. Já que, sabe, não há lugar para bagunça no meu coração. 
Eu te escolhi, moreno, mas não fui a escolhida. Eu fui o acaso, a coincidência, a pessoa errada na hora certa. Podia ter sido eu, a ruiva na mesa próxima, ou aquela atendente do café com armação do óculos alaranjada. Podia ter sido qualquer uma de nós, moreno, e você teria jogado toda sua porcaria em quem fosse, esperando que essa pobre moça tomasse as decisões por você, ou melhor, decidisse dar um rumo às suas incontáveis interrogações. 
Ah, meu caro, eu sinto tanto por mim. Sinto tanto por ter reparado quando já não era mais possível separar suas bagunças catalogadas de minhas certezas intituladas... era tarde de mais, moreno, eu havia acolhido tanto, que já não éramos mais heterogêneos. E olhe só, como se eu soubesse falar de química ou qualquer outra ciência exata. 
Eu fui uma aposta, moreno, uma aposta sua consigo mesmo de que conseguiria passar mais de uma semana com o mesmo perfume e a mesma textura de lábios. Foi uma aposta que eu perdi sem mesmo estar no desafio, e você, ah, é claro que ganhou. Me ganhou. Me ganhou sem sequer querer. Me fez te escolher quando você só esbarrou em mim. 
Agora, com tanto esforço quanto pude reunir, foi que retirei tua bagunça das minhas certezas, mas estou certa de acabei esquecendo algumas. Um pouco da tua bagunça fica comigo, moreno, e um pouco de minha certeza deve ter caído sem querer no meio da tua mixórdia. 
Cuida delas, moreno, enquanto eu vou seguir tentando tornar a bagunça que me restou, em certezas. Um dia elas serão, é claro. E, por favor, tenha muita atenção na próxima vez, rapaz, eu fui tola, mas as pessoas não costumam ser. 
Eu fui só uma aposta de você consigo mesmo, e, moreno, às vezes a ficha demora a cair, a minha acaba de despencar.

— Bruna Barp



OBS: O texto em NADA tem a ver com a vida pessoal da autora. A situação e personagens são apenas fictícios. 



Foto: We heart it